É Natal (meu primeiro conto de Natal)
dezembro 23, 2011 at 5:40 pm 2 comentários
É Natal
Helmut seguia pela Avenida Rio Branco, uma das principais do centro da grande cidade do Rio de Janeiro. Grande em prédios, grande em sujeira, grande em pessoas, grande em alegria, grande em roubo, grande em comércio, grande em confusão, grande em turistas, grande em engarrafamentos, grande em música alta, grande coisa!
Fim do dia, véspera de Natal com um calor infernal, Helmutt caminhava resoluto até o metrô, perdido em seus pensamentos, enquanto pessoas histericamente consumiam e ouviam músicas de natal nas lojas. Paz na terra, amor ao próximo eram repetidos continuamente enquanto as pessoas compravam, compravam, compravam.
Rodrigo estava aborrecido. Estar de plantão na véspera de natal era cruel demais para quem tinha esposa grávida em casa. Ele ia ser pai de uma menina. O tenente devia estar de sacanagem com ele. O cabo da PM foi para a esquina que lhe haviam designado assistir ao espetáculo da fauna humana na selva que era o centro da cidade do Rio de Janeiro na véspera de natal. Até que não tinha tanta gente na rua, mas o calor… E os apressados fazendo as compras de última hora, trombando uns nos outros, sacudindo as sacolas numa competição boba e sem prêmios. Rodrigo riu, estava repetindo a fala do professor do curso que fazia à noite para, quem sabe, entrar para uma faculdade no ano que vem. Sentia o suor descendo pelas costas e respirou resignado.
Helmut sentou-se a uma mesa e pediu uma cerveja gelada. Era melhor esperar a confusão passar, dar um tempo no centro até o metrô esvaziar. Um homem de noventa e um anos não podia mais encarar esse tipo de coisa. “Noventa e um anos! Quem diria que eu viria a viver tanto?!” – pensou Helmutt saboreando sua cerveja.
- Vai querer algo para acompanhar, seu Wolfgang? – perguntou o garçom
- Batata frita. O médico proibiu, mas, que diabo, só se vive uma vez!
Helmut era conhecido ali, mas conhecido como Wolfgang. “Se eu fosse traduzir Wolfgang seria algo como gangue de lobos”. As batatas chegaram e ele as comeu com satisfação “Isaac gostava de batatas fritas.”
Oitenta anos atrás, Helmut era um menino de uma família muito pobre nas ruas cinzentas de uma Berlin confusa entre a hiperinflação e a recessão. Naquele natal não havia brinquedos, como no anterior, e no anterior, e no anterior. Estava frio, dentro do restaurante devia estar quente, as pessoas comiam coisas quentes e gostosas, as botas velhas deixavam seus pés frios. Uma torta de mação era comida por uma família gorda e feliz.
- Batata frita, Helmut?
Helmut se virou para dar de frente com a cara sorridente de Isaac, seu melhor amigo, ou pelo menos o único que também não comemorava o natal. A família de Isaac era um pouco pobre, tinham mais comida e roupas. O pai de Helmut dizia que os judeus eram ricos porque tinham pego todo o dinheiro dos alemães, mas se isso era verdade a família de Isaac era uma exceção. O pai de Helmut não gostava quando ele almoçava lá, mas a mãe preferia ver o filho de barriga cheia do que vazia.
Os dois meninos seguiram pelas ruas comendo batatas fritas, rindo, contando piadas.
O cabo Rodrigo deixou o carro ir embora, afinal, o que é estar com os documentos em atraso e sem carteira? Não era nada. O dinheiro ardia no bolso. Todo mundo comete erros, esquece de pagar o IPVA, deixa para depois e atrasa os documentos. O dinheiro ardia no bolso. O que tem de mais? A pessoa precisa ter bom senso e ser compreensiva. Errar é humano. O dinheiro ardia no bolso. Pelo menos, era assim que tinha começado na vida de Rodrigo. Salário baixo, contas altas, todo mundo faz, o que tem só uma vez? Vai ser só dessa vez para poder pagar o aluguel. O dinheiro ardia no bolso. Mas, aí foi preciso pagar os remédios da mãe e depois uma roupa nova para a irmã. O dinheiro ardia no bolso. Depois Helena ficou grávida e tinha os exames e o enxoval e o plano de saúde não cobria tudo. Primeiro, o dinheiro era usado para inteirar, agora não dá mais para viver com ele. Um dia ele ia sair dessa. Porra, ele não matava, não roubava, não extorquia. Só fazia vista grossa aqui e ali. Afinal, compra droga quem quer. O dinheiro queimava no bolso.
Helmut comeu e bebeu até que a noite caiu sobre a cidade. O restaurante fechou e ele tinha que ir para casa. Decidiu ir andando. Afinal, ele morava na Glória, por isso a caminhada não era tão longa assim. Ele passou pelas lojas vazias, onde não tinha entrado porque não tinha para quem comprar presentes.
Setenta anos atrás, Helmut era um jovem oficial do exército, respeitado membro do partido, por isso caminhava apressado querendo não ser visto por ninguém. As ruas estavam desertas e ele agradeceu a Deus por isso. A Alemanha era agora um grande país. Mas, Isaac…Ele tinha que sair com a família e logo. Helmut ouvira coisas dos oficiais superiores.
Quando chegou à casa, Helmut a encontrou abandonada. Ninguém.
“- Tarde demais. Cheguei tarde demais”.
O jovem tenente vagou pelas ruas, andando a esmo, todo o bairro judeu parecia deserto. Ele virou uma esquina e sentiu o cheiro de batatas fritas. Dois soldados passaram por ele:
- Feliz natal, senhor.
Rodrigo estava cansado. As pernas doíam, as costas doíam, o calor tinha diminuído só um pouco. Ele estava prestes a soltar um palavrão quando um pai chegou perto dele segurando a filhinha, uma criança de uns cinco anos, pela mão.
- Está vendo filha? Esse homem é um policial. Os policiais protegem a gente dos bandidos, das pessoas malvadas. Se você se perder do papai procure um deles para te ajudar.
A menina abraçou Rodrigo:
- Obrigada.
O pai e a filha seguiram caminho. Rodrigo ficou olhando para eles e sentiu orgulho da farda. “Eu sou um policial militar”. – disse para si mesmo.
Um carro parou e ele ouviu um assovio. Era o tenente Pereira acenando. Rodrigo chegou até o carro e recebeu um envelope fechado. Pereira sorriu:
- Compra um presentão para tua filha! Feliz Natal!
Helmut chegou perto de casa e viu os mendigos de sempre dormindo nas ruas. Entre eles algumas crianças, encolhidas, agarradas umas nas outras.
“- Como podem sentir frio nesse calor?” – ele pensou. Mas, Helmut sabia bem que não era só o frio que fazia as pessoas se encolherem.
Sessenta e oito anos atrás, o capitão Helmut foi designado para Auschwitz, depois de dois meses ele se sentia um zumbi. Helmut andava, recebia ordens, dava ordens, comia, dormia, acordava, andava de novo, recebia mais ordens, dava mais ordens, sem conseguir sentir mais nada. Seus olhos viam, mas ele não enxergava. Seus ouvidos ouviam, mas ele não escutava.
Uma tarde ele se viu sozinho entre os judeus que trabalhavam. Um homem tocou-lhe a manga. Helmut se virou para empurrá-lo.
- Helmut, sou eu Isaac.
Helmut firmou a vista. Era Isaac, mas não era Isaac. Aquilo era um esqueleto de pé, sujo, sem dentes, trôpego, carregando nos braços algo que parecia ser uma criança de dois anos.
- Por favor, só restou ela. Minha filha, minha Sarah. Tire-a daqui. Por favor.
Helmut olhou nervoso em volta. Se um oficial o visse ele perderia tudo. Sua esposa Anke, seu filho Heinz, ele tinha responsabilidades.
- Eu não posso fazer nada. Eu só cumpro ordens.
- Por favor, Helmut.
Ele ergueu as mãos para empurrar Isaac. Ninguém o olhava. Ninguém estava lá. Isaac chorava. Helmut não se mexeu.
- Por favor, pelo amor de Deus.
- Meu Deus não é o mesmo que o seu!
- Pelas batatas fritas…
Helmut olhou para o bebê.
O cabo Rodrigo seguiu pelas ruas com lágrimas escondidas atrás dos olhos. O envelope no bolso. Ele caminhou a esmo pela Avenida Rio Branco, chegou à Cinelândia e seguiu em frente para a Glória. Cansado. Faltava pouco agora para que ele pudesse voltar para a casa, guardar seu uniforme, comer a ceia de natal.
Na esquina, ele viu Maurício, o filho de um figurão, fazendo das suas. Provocando meninas, andando com seu bando, aprontando, logo iria arrumar briga, certo de que ninguém se metia com ele.
“- Talvez seja melhor pegar outro caminho. Se meter com o Maurício é perder a promoção.”
Helmut nunca havia falado com Sarah. O comandante achava que ele tinha pegado a menina para ser sua criada e não havia dito nada porque Helmut não falou nada sobre o que o comandante fazia com as moças e rapazes judeus. Sarah foi para Portugal e de lá para a Inglaterra. Helmut não falou com ela. Como poderia? Durante a guerra era perigoso. Depois, mais ainda. Ele havia fugido para o Brasil, escoltando outros. Novo nome, nova vida. Não teve ninguém. Esposa ou filhos. Como podia trazer uma criança para o mundo?
Helmut se sentou em um banco e os viu. Predadores. Como ele fora. Não tinha querido ser, mas fora. Cumprindo ordens. Os predadores se aproximaram das crianças que dormiam.
O cabo Rodrigo passou pela Cinelândia e tomou o rumo da Glória. Hora de tomar uma cervejinha e depois pegar o ônibus para casa. Ele já podia sentir o gosto do panetone.
Os predadores agarram um menino pelo braço e gritaram, riram, humilharam. As demais crianças correram. Ruas quase vazias. Quem olhava não via. Eles começaram a bater no menino. Rapazes ricos, jovens e fortes. Helmut simplesmente empurrou um deles e gritou:
- Vão embora!
“- Ficou maluco, velho? Cai fora!”
Helmut abraçou o menino, protegendo-o com seu corpo, era tão pequeno, tão frágil. Abraçou o mais forte que pôde. Logo sentiu o primeiro chute. Nas costas. Doeu. Sentiu socos e chutes, tudo doía. Ossos quebravam. Sangrava por dentro e por fora. Mas, o menino estava bem. Helmut sussurava:
- Me perdoe, Isaac.
Maurício e seus dois amigos riam. Ele deu um chute e ouviu o velho expirar. Velho maluco. O menino tentou correr, mas Bruno o pegou. Maurício segurou o menino pelo pescoço e perguntou:
- Qual o seu nome, moleque?
- Mateus.
- Quer ver se papai Noel existe, Mateus?
Maurício riu e preparou o soco.
- Polícia! Todo mundo parado! Vocês estão presos.
Maurício se virou surpreso e viu um cabo da PM lhe apontando uma arma. Será que o idiota não sabia quem ele era? Ele virou para Bruno e Marcos e disse que eles se acalmassem que ele logo resolvia tudo. Caminhou até o PM:
- Você sabe quem eu sou?
- Um safado que bate em velhos e crianças e agora vai para a cadeia.
Maurício parou sem acreditar. Um homem correu até o velho, tomou o pulso e anunciou a morte. A criança foi recolhida por uma senhora.
- Coitado do Seu Wolgang. – alguém falou.
- Você está preso por agressão e homicídio.
- Quem você pensa que é? – perguntou Maurício ainda sem acreditar.
- Eu sou um policial militar! – respondeu Rodrigo.
Na delegacia, uma senhora segurava Mateus pela mão e dizia convicta à assistente social:
- Eu quero adotar esse menino. Você me disse que ele não tem lar.
- Essas coisas levam tempo, mas eu não creio que haja problema.
Mateus, quieto, decidiu estudar para se tornar juiz de direito.
Rodrigo chegou em casa, abraçou a esposa, teve sua ceia de Natal. Dois dias depois, ele doou o dinheiro do envelope a um lar de idosos mantido por sua igreja.
Helmut estava encolhido chorando. O menino tinha escapado. Ele achava que tinha ouvido isso. Mas, agora, ele sentia muito frio. O inferno era assim? Tinham lhe dito que seria um lugar quente. Ele se encolhia e chorava.
- Helmut?
Quem o chamava? Aquela voz era familiar. Ele ergueu os olhos.
- Helmut, sou eu Isaac.
Helmut olhou para Isaac, sadio, forte, jovem, sorrindo para ele. Chorou mais ainda:
- Você…você me perdoa?
- Já fiz isso há muito tempo. Falta agora você se perdoar.
Helmut se levantou amparado por Isaac, os dois deixaram o Rio de Janeiro para trás, caminhando cada vez mais alto. Helmut chorava.
- Vamos, Sarah está esperando por nós.
- Hã.
- Você viveu muito, Helmut.
- Me desculpe.
- Eu sei.
Silêncio.
- Helmut.
- Sim?
- Feliz Natal.
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1.
Ricardo Herdy | dezembro 24, 2011 às 1:37 am
Carlos, parabéns; muito bom mesmo, a emoção bem dosada, nada de concessão a sentimentalismos baratos e superficiais. É uma história de redenção tocante. Mais uma vez, parabéns!
2. Don’t Worry, ByM Happy!! » Então é Natal… | dezembro 25, 2011 às 12:42 am
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