Espiritismo, Candomblé, Umbanda – minha visão

junho 27, 2011 at 11:02 pm 5 comentários

Esse é um tema polêmico, mas quero compartilhar minha visão sobre o assunto com as pessoas que eventualmente passarem por aqui.

O Espiritismo surge com a codificação feita por Alan Kardec em suas 5 obras básicas: O Livro dos Espíritos (1857); O Livro dos Médiuns (1861); O Evangelho Segundo o Espiritismo (1864); Céu e Inferno (1865); A Gênese (1868). A esses livros podemos juntar O que é o Espiritismo (1859) e Obras Póstumas (1890). Os três primeiros são os mais conhecidos. Pode-se ver o Livro dos Espíritos como sendo o sistema teórico, o Livro dos Médiuns como a práxis e o Evangelho como sendo o norteador moral.

Kardec chegou a suas conclusões fazendo uma pesquisa empírica, de campo, compilando centenas de observações e relatos. O Espiritismo pretendia então conciliar religião, ciência e filosofia, colocando-se aberto a verificações de outros cientistas.  No Brasil, as duas vertentes, mais científica e mais religiosas chegaram ainda no século XIX.  Através da atuaçãod e grandes líderes humanitários de extrema generosidade, como o Dr.Bezerra de Menezes, a vertente religiosa tornou-se dominante, sendo seu maior exemplo no século XX o médium Chico Xavier.

O espiritismo hoje é bem desenvolvido no Brasil, tendo milhões de adeptos. Entre suas crenças fundamentais está a existência de Deus, vida pós-morte no mundo espiritual, a importância da caridade e do amor ao próximo para a evolução espiritual (a fé professada pela pessoa ou mesmo seu ateísmo não tem peso em comparação com o amor ao próximo) e a reencarnação. Espíritos ainda ignorantes  influenciam negativamente as pessoas e espíritos iluminados buscam orientá-las para o bem como seus mentores. Muitos adeptos do espiritismo se vêem como cristãos por buscarem seguir os ensinamentos morais de Jesus Cristo, principalmente o primeiro mandamento “Amai a Deus acima de todas as coisas e o próximo como a ti mesmo” e a prática da caridade. O próprio livro “O Evangelho Segundo o Espiritismo” pode ser visto como um esforço para consolidar uma nova vertente do cristianismo. Apesar disso, alguns protestantes e católicos rejeitam vigorosamente os espíritas como cristãos.

O Candomblé tem outra origem. O povo banto foi trazido como escravo nos séculos XVI, XVII e início do XVIII. Separados e forçados a se converter ao catolicismo, buscaram manter suas crenças pelo sincretismo, dando origem ao candomblém de Angola ou Moçambique. No século XVIII chegou o povo fon do Daomé, que dará origem ao chamado candomblé jeje, em um processo bem similar ao do banto. No início do século XIX, o principal reino yorubá cai e pessoas da nobreza desse povo são trazidas como escravas. Aqui, três princesas darão origem a principal linha do candomblé yorubá ou nagô. Essa se tornará a vertente mais conhecida devido à obra de Jorge Amado e a atuação do pai de santo, Joãozinho da Goméia.

Os praticantes do candomblé acreditam no mundo espiritual onde há vida após a morte, na força divina dos orixás que os influenciam e protegem e, normalmente, na reencarnação. Não sendo uma religião cristã, o candomblé pode seguir outro norte moral que pode ser aferido pelos itãs, as histórias dos orixás que apresentam valores como lealdade, amor familiar, astúcia, compaixão, coragem, dever. Na prática, muitos pais e mães de santo seguem os valores do cristianismo que estão imbuídos na cultura brasileira. O Candomblé é uma religião afrobrasileira que surgiu em nosso país, não sendo praticado da mesma forma na África.

A Umbanda é uma religião brasileira surgida em 1908 no Rio de Janeiro. O rapaz Zélio Fernandino de Morais, sofria espasmos, mau estar, falava vozes, deixando sua família preocupada. Após visitas a médicos e tentativas de exorcismo católico, o rapaz foi levado a um centro espírita kardecista onde foi identificado como médium.  No centro, Zélio mostrou ser um médium de incorporação através do qual diversos espíritos se manifestaram oralmente. Os médiuns kardecistas buscaram doutrinar os espíritos que se apresentaram, pedindo que se afastassem para que outros mais iluminados pudessem se manifestar. Como os espíritos manifestados por Zélio se apresentassem como caboclos ou pretos-velhos que foram escravos, os médiuns presentes a mesa consideravam-nos ainda ignorantes devido às condições primitivas de suas vidas passadas. O guia-chefe de Zélio retornou e disse então que fundaria uma nova religião fundamentada na caridade e que desse voz aos humildes. Isso se deu no dia 15/11/2008, surgia a Umbanda.

Inicialmente, manifestavam-se apenas caboclos e pretos-velhos como guias, os mentores espirituais dos médiuns. Depois surgiram os exus e pombo-giras, espíritos saídos das trevas há pouco tempo e dispostos a ajudar com conselhos sobre a vida material. Para mim, representam a esperança por terem conseguido sair das trevas.

A Umbanda então se diversificou em várias correntes, tais como: umbanda africana, mais próxima do candomblé; umbanda esotérica, que busca conhecimentos da teosofia; umbanda tradicional, que não trabalha com orixás; umbanda branca, dentre várias outras.

Os umbandistas que buscaram as obras de Kardec como referencial teórico e o evangelho segundo o espiritismo como orientação moral, muitas vezes se denominam “espíritas umbandistas” para especificar a vertente que seguem. Alguns espíritas kardecistas rejeitam esses umbandistas como espíritas com o mesmo vigor com que alguns católicos e protestantes os rejeitam como cristãos.

Os pretos-velhos trouxeram o culto aos orixás, mas de forma diferenciada do que no candomblé. Os trabalhos com ervas, defumação, charutos etc, seguem o pensamento de que eventos no plano físico movimentam energias no plano espiritual, auxiliando a pessoa no seu momento de fraqueza.

Os umbandistas acreditam em Deus, nos ensinamentos morais de Jesus Cristo, na reencarnação, na evolução espiritual através da caridade, do amor ao próximo e do estudo. Nossos mentores são chamados de guias e buscam nos orientar para o bem. Espíritos ignorantes buscam influenciar negativamente e devem ser auxiliados a encontrar a luz, porém, cada um tem seu caminho.

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5 Comentários Add your own

  • 1. Joana Porto  |  junho 28, 2011 às 1:14 am

    Olá!
    Gostei de saber sobre a história da umbanda. Li seu post e outros, quase iguais. Na minha modesta visão, o nome espírita não seria adequado, uma vez que possui muitos elementos e rituais não usados no espiritismo. Penso que deveria se chamar Umbanda, apenas. E, realmente, ela tomou outros caminhos, que foram “proibidos” no seu início. Um abraço, e gracias pelas informações

    Responder
  • 2. klimick  |  junho 28, 2011 às 1:28 am

    É uma questão de ponto de vista e respeito a sua opinião, Joana. Não sei bem a que caminhos proibidos vc se refere. Na Umbanda deve-se sempre visar o bem das pessoas, auxiliá-las em suas dificuldades, mas não fazer por elas e jamais prejudicar alguém. Claro, que nem todo mundo que se afirma umbandista de fato o é e segue esses preceitos morais.

    A Umbanda realmente tem elementos e rituais não usados no espiritismo o que a diferencia do kardecismo. Porém, usar apenas o termo “umbanda” pode ser genérico demais devido a grande variedade de vertentes e linhas que existem. Como a umbanda compartilha com o espiritismo kardecista a crença na reencarnação, na caridade e amor ao próximo como o caminho para a evolução espiritual, na presença dos mentores/guias nos auxiliando, nos diferentes tipo de mediunidade, vejo muitos pontos em comum com o kardecismo.
    Não estaríamos falando de algo similar às diferenças entre o cristianismo protestante e o cristianismo católico. As diferenças entre ambos são marcantes (o culto aos santos é apenas o exemplo mais chamativo visualmente), mas ambos são vertentes do cristianismo.
    Enfim, prefiro me definir como umbandista espírita não somente para me identificar diante das diferentes correntes, como também para ter a oportunidade de esclarecer qual é minha posição religiosa.
    Deus a abençoe!

    Responder
  • 3. Zero Pereira  |  junho 28, 2011 às 2:11 am

    Primo, tenho hoje, uma opinião formada e contextualizada pelo ensino bíblico e por circulos de estudo. Mesmo assim, a todo momento me surpreendo com novas informações. Estamos sempre aprendendo algo novo. No pouco que sei, as religiões descendentes da etnia africana não se balizaram nos ensinamentos cristãos. Seguiram por uma linha que poderiamos chamar de “conduta da hereditariedade” (onde os mais sábios, geralmente os mais velhos passam seus conhecimentos aos mais novos). Desta feita, encontramos nos dias de hoje, um “cem nomes” e “denominações” religiosas, que seguem a uma mescla de dogmas e rituais que podem ser explicados pela discidência religiosa. Muitos pastores passaram para o Candomblê, Umbandistas passaram para o Protestantismo, Protestantes passaram para o Catolicismo etc. Eu mesmo, fui criado desde minha mais tenra idade no protestantismo. Depois de percorrer por muitas e muitas religiões, entendi que o verdadeiro caminho “para mim” é o Catolicismo Apostólico Romano. Entendi que se quero seguir a Jesus, devo acatar a “Sua Igreja”, afinal, Ele chamou a Pedro e pediu que ele edificasse a sua Igreja. Assim Pedro fez (entendo então que quem quer seguir os mandamentos e ensinamentos de Jesus, deveria também ser Católico Apostólico Romano). Não cultivo a idéia de bairrismo religioso. Simplesmente entendo que se eu quero comer um sanduiche do Mac Donalds, eu não vou pedi-lo na loja do Bob’s.
    Deus nos deu o “livre arbitrio” para ser usado da melhor forma. Para o bem preferencialmente. Agora, o que entendo mesmo, é que independente da Religião que o homem segue, que realmente o que move o mundo de forma correta é o Amor ao proximo. Então seja Umbandista, Espirita Umbandista, Umbandista Espírita, Crente (protestante) ou Católico, devemos sempre cultivar o amor fraternal. .

    Responder
  • 4. Gigi  |  junho 28, 2011 às 12:49 pm

    Esta otimo seu post! Esclarece bem. So chamo a atencao pro 6 paragrafo. Vc colocou 2008…
    Eu ja sou da opiniao de que cada um se auto-rotule o que quiser. Qualquer valor abstrato tem o peso da subjetividade e isso inclui palavras. Para cada ouvinte, o mesmo termo pode significar algo diferente. Portanto nao ha ninguem melhor para se rotular do que a propria pessoa.
    A “rejeicao” de pessoas que seguem outras religioes vem de uma mediocre apropriacao de palavras com sua conseguinte fundamental definicao. Isso existe desde que o mundo eh mundo. Quando nao se ha flexibilidade de interpretacao, ha varias verdades absolutas. E dai tudo se enrosca!… :)

    Responder
  • 5. klimick  |  junho 28, 2011 às 5:43 pm

    Ups! Obrigado, Gigi, é 1908 e não 2008. Concordo contigo sobre rótulos e nomeações.

    Querido primo Zeno, que bom receber uma mensagem sua!
    Devo discordar da sua opinião em alguns pontos.
    Primeiro, a Umbanda se diferencia do Candomblé, como mostrei acima, sendo a primeira brasileira e cristã e o segundo brasileiro de matriz africana e não cristão.
    Segundo, afirmar que quem deseja ser seguir os ensinamentos de Jesus deva ser católico apostólico romano é extremamente discutível e assim o foi por séculos.
    Primeiro, os evangelhos escolhidos para serem os oficiais da Bíblia o foram no Concílio de Cartago de 397 d.C. onde se consolidou a vitória política da Igreja Cristã de Pedro e Paulo sobre as igreja de Tiago e a Igreja de Tomé e Maria Madalena. Se essa vitória se deveu à vontade de Deus ou a correlação de forças políticas, isso é uma questão de fé.
    Mas, veja que é possível questionar a frase que dá autoridade e primazia a Pedro por esta não estar presentes em evangelhos que ficaram de fora do canône oficial.
    Além disso, o cisma entre a Igreja ortodoxa e a católica se deveu justamente sobre se o bispo de Roma teria autoridade sobre o bispo de Constantinopla.
    Isso sem falar em outras correntes como o cristianismo ariano, o cristianismo de pelásgio, a Igreja Armênia, a Igreja Etíope, e os grandes cismas que irão gerar a Igreja Anglicana e toda a corrente protestante do cristianismo.
    Sendo assim, discordo vigorosamente da sua afirmação acima.
    Do mesmo modo que concordo fervorosamente que o amor ao próximo é o que move o mundo e é o melhor caminho para a humanidade.

    Responder

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