Jogos + Brincadeiras = Desenvolvimento cognitivo

julho 5, 2007 at 2:14 pm 7 comentários

Jogos ou brincadeiras são uma excelente forma de aprendizado. Simulamos situações, socializamos, fazemos catarses com a imaginação, desenvolvemos nossas mentes. O O texto abaixo foi extraído da minha dissertação de mestrado em Design na PUC-Rio. Achei bem interessante para esta série de posts sobre jogos e narrativas. Eu uso conceitos do pesquisador russo Vygotsky, morto prematuramente de tuberculose na década de 1930, e que tem grande influência no Brasil.

Vygotsky propõe que o brinquedo, o brincar, surge nas atividades das crianças em idade pré-escolar como uma forma de atender desejos que não podem ser imediatamente satisfeitos. Por exemplo, a criança já viu um adulto dirigir um carro e gostaria de dirigir também, mas não pode. “Para resolver essa tensão, a criança em idade pré-escolar envolve-se num mundo ilusório e imaginário onde os desejos não realizáveis podem ser realizados, e esse mundo é o que chamamos de brinquedo.” (Vygotsky, 1984: 122) O que não quer dizer que todos os desejos não realizáveis dêem origem a brinquedos.

Para Leontiev[1], na brincadeira o foco está no próprio processo e não no resultado da ação. “Por isso, nos jogos adultos, quando a vitória, mais do que a simples participação, torna-se o motivo interior, o jogo deixa de ser brincadeira.” (Leontiev, 1994: 123)
Vygotsky afirma que é um engano supor que nas situações imaginárias de brinquedo não há regras, elas sempre existem. Mesmo nos jogos de papéis, em que a criança brinca de mãe da boneca, existem regras comportamentais mesmo que estas não estejam formalmente estabelecidas a priori. A criança age como “imagina” que uma mãe agiria, ela segue as regras oriundas da própria situação imaginária. Vygotsky ressalta, porém, que mesmo os chamados jogos puros com regras contêm uma situação imaginária. “O mais simples jogo com regras transforma-se imediatamente numa situação imaginária, no sentido de que, assim que o jogo é regulamentado por certas regras, várias possibilidades de ação são eliminadas.” (Vygotsky, 1984: 125)
Leontiev afirma que os jogos com regras surgem a partir dos jogos de papéis em situações imaginárias. Numa brincadeira de “polícia e ladrão”, por exemplo, existem papéis e regras. Os “ladrões” fogem dos “policiais” e ficam “presos na cadeia” quando pegos.
A lei geral do desenvolvimento das formas de brinquedo do período pré-escolar expressa-se na transição dos jogos com uma situação imaginária explícita e um papel explícito, mas com uma regra latente para um jogo, uma situação imaginária latente e um papel latente, mas uma regra explícita. (Leontiev, 1994: 135)
A mudança se dá, assim, porque nos jogos com regras há a inclusão de um certo objetivo. A conscientização de um objetivo para a brincadeira leva a criação de regras definidas.

É enorme a influência do brinquedo no desenvolvimento de uma criança. As crianças muito pequenas são incapazes de separar o campo do significado do campo da percepção visual, uma vez que há uma fusão muito íntima entre o significado e o que é visto. Assim, uma criança nesta idade não conseguiria, por exemplo, afirmar que uma pessoa diante dela está sentada se esta estiver em pé. No brinquedo, a ação começa a ser determinada pelas idéias e não pelos objetos, constituindo “um estágio entre as restrições puramente situacionais da primeira infância e o pensamento adulto, que pode ser totalmente desvinculado de situações reais”, segundo Vygotsky (1984: 129).
A capacidade de “fazer de conta”, de transformar um cabo de vassoura num cavalo, ainda que limitada, é um caminho que leva do raciocínio concreto para o abstrato e o uso de símbolos. Essa capacidade de simulação torna o brinquedo uma grande fonte de desenvolvimento para a criança.


 

 

[1] Alexis N. Leontiev (1903-1979) Um dos importantes psicólogos soviéticos a trabalhar com Vygotsky e Luria. Seu campo de estudos compreendeu a pedagogia, a cultura no seu conjunto, o problema da personalidade. Criou a Faculdade de Psicologia da Universidade de Moscou.

Bibliografia
KLIMICK, Carlos. RPG & Educação. http://www.historias.interativas.nom.br/educ.

____________.Construção de Personagem & Aquisição de Linguagem: o Desafio do RPG no INES. Dissertação de mestrado, Depto. de Artes e Design – PUC-Rio. Rio de Janeiro, 2003.

LEONTIEV, Alexis N. Os princípios psicológicos da brincadeira pré-escolar. In: VYGOTSKY, L.S.; LURIA, A.R.; LEONTIEV, A.R. Linguagem, desenvolvimento e aprendizagem. Tradução: Maria da Penha Villalobos. São Paulo. Ícone Editora Ltda. 1994.
VYGOTSKY, L.S. A Formação Social da Mente. Tradução: José Cipolla Neto, Luís Silveira Menna Barreto, Solange Castro Afeche. São Paulo: Martins Fontes. 1984.
______________ Pensamento e Linguagem. Tradução: Jefferson Luiz Camargo. Revisão técnica: José Cippola Neto. São Paulo: Martins Fontes. 1987

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Forte abraço a todas e todos!

 

 

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Breves definições: Jogo (1) RPG: Jogo ou Narrativa? (1)

7 Comentários Add your own

  • 1. André  |  julho 5, 2007 às 3:25 pm

    Muito legal. isso me remeteu à minha infância, minha mãe conta que eu adorava brincar com as caixas dos brinquedos ou criar meus próprios com sucata.rs E olha que tinha muitos brinquedos.
    Tempo bom aquele…

    Responder
  • 2. klimick  |  julho 5, 2007 às 7:38 pm

    O que foi felicidade, hoje me mata de saudade…
    Mamãe, mamãe, mamãe, eu me lembro do avental sujo de ovo…

    Memórias podem ser uma fonte de cálida alegria. Vejo que vc já era criativo desde criança, provavelmente estimulado a isso. Criativo continuou quando adulto. Logo, Vygotsky e Leontiev estavam certos!

    Responder
  • 3. Márcio  |  julho 8, 2007 às 12:17 am

    Eu largava qualquer brinquedo que tivesse para fabricar os meus com papel alumínio! Hehehehe! Criava action figures de todos os gêneros e tamanhos, para o desespero da minha mãe ao procurar o rolo que estava na cozinha!

    Responder
  • 4. Clarissa  |  janeiro 15, 2008 às 10:45 pm

    Adorei o seu blog muito dez!!! Está de parabéns! Muito interessante!
    ah se puder acesse meu site também da nossa clínica de psicoterapia e terapias alternativas!
    http://www.haraterapias.com.br/inicio.html

    grande abraço,
    Clarissa

    Responder
  • 5. joao vitor  |  maio 12, 2008 às 1:11 am

    muito bom, esse site relata muito sobre o comportamento das crianças, de que elas devem ser livres para imaginar……..
    eu como professor de educação física gosto muito de ler sobre Vygotsky e Piajet, mas eu gostaria realmente de saber quais são os melhores jogos cognitivos para serem aplicados as crianças de series iniciais.

    Responder
  • 6. andréia  |  maio 22, 2008 às 11:17 pm

    olá!!! gostei muito dos comentários sobre jogos e brinquedos, eu trabalho em uma biblioteca que tem uma brinquedoteca muito explorada por deficiêntes visuais, e foi muito importante para mim pois sou seguidora da teoria de Vygotsky.

    Responder
  • 7. stela da silva  |  abril 18, 2011 às 1:36 pm

    foi ótimo esse comemtários,mem tirou do sufoco/rss
    obrigado…………

    Responder

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